Sexta-feira, 6 de julho de 2012


Orgulho Tricolor - Parte I

O ano era de 2011. O Fluminense Football Club era campeão novamente, em mais uma partida épica diante de um América que não fora páreo para o exército tricolor. Desde então Juquinha, um típico moleque de 10 anos apaixonado por futebol e pelo Fluminense, que trocava televisão, internet, vídeo-game e qualquer outra brincadeira eletrônica por uma pelada com os amigos, estava insuportável. Tamanha era sua euforia que em toda partida jogada com os amigos, fosse ela na praia, colégio, praça ou rua, não dispensava o pavilhão tricolor e “as munhequeiras de Deco”. Até seu cabelo crespo, cultivado à custa de várias fugas do barbeiro, fora deixado crescer meticulosamente para ficar com o jeitão Fred de ser. 

Sabia todas as músicas cantadas nas arquibancadas, sabia a escalação do Fluminense de cor, sabia que nunca América, Botafogo e Paysandu seriam páreos para o esquadrão tricolor. Não com Cavalieri, Gum, Deco, Thiago Neves e Fred. Mal sabia Juquinha que um capítulo político nos bastidores das Laranjeiras o faria perder os ídolos e as esperanças no Fluminense. 

Após desavenças, desencontros e desentendimentos entre a diretoria tricolor e os jogadores titulares, estes encabeçados por Fred, nove jogadores do time principal decidiram rescindir seus respectivos contratos e abandonar o clube. Cavalieri, Carlinhos, Gum, Diguinho, Deco, Thiago Neves, Fred e Wellington Nem deixavam as dependências da Rua Álvaro Chaves poucas semanas após levantarem mais uma taça, num ato irremediável e inconsolável para torcida tricolor. Era o fim do Fluminense imbatível, era o fim da alegria momentânea de Juquinha. 

Desolado, o pobre tricolor mirim, no alto de seus 10 anos, não conseguia entender como havia perdido todos os seus ídolos. Mais desolado ainda ficava ao olhar o que lhe havia sobrado para torcer. Não via um time imbatível, via um escrete medíocre, um grupo que não conseguiria nem sob intervenções de João de Deus fazer frente ao modesto Rio Cricket, goleado inapelavelmente por 5x0 pelo Flu, o ainda imbatível, naquele ano.


Orgulho Tricolor - Parte II

Passaram-se alguns dias. Juquinha se conformara com a situação, não havia nada além a fazer. Não tinha notícias dos seus ex-ídolos. No seu peito uma fagulha de esperança de ver toda essa loucura desfeita. A esperança de uma vez mais ver Deco desfilar elegância com a pelota nos pés trajando o pavilhão tricolor, de ver Fred inapelavelmente balançar o barbante adversário e correr para a torcida tricolor, de vibrar com mais um voo de Cavalieri no impedimento da violação da baliza verde, branco e grená. Uma mera fagulha, que viria a se tornar uma labareda. 

Meses após a dissolução de parte do Fluminense, à caminho da escola, Juquinha ouviu pelo rádio do carro do seu pai, o doutrinador da filosofia tricolor, que os nove craques que saíram do Fluminense iriam retornar. Bastou o locutor terminar de soletrar o “erre”, entonado como éérii, pra o pequeno tricolor pular do banco e soltar um grito digno de gol, um grito que levava consigo uma alegria incontrolável, inexplicável. Pobre guri. Numa velocidade meteórica vira a labareda se transformar em cinzas após uma onda de água fria. Fred, Deco e Cia iriam retornar, não ao Fluminense, mas aos gramados. 

Incrédulo, Juquinha ouvia atento, não menos que seu pai Antônio, o destino dos gloriosos tricolores de outrora. E para surpresa de ambos não era nem Botafogo, nem América, ou os paulistas Corinthians Casuals ou São Paulo Atlétic. O noneto que cansara de dar alegrias ao Fluminense e sua apaixonada torcida iria “fundar” um clube. Na verdade, o clube já estava fundado desde 1800 e alguma coisa, era o Clube de Regatas Flamengo. O ex-tricolores iriam inaugurar o futebol de uma agremiação que até então se limitava aos esportes aquáticos de canoagem. Juquinha, como bom tricolor acompanhante do remo, tinha simpatia pelo clube da gávea, uma vez que diferentemente do Botafogo, o Fluminense não possuía tal modalidade em seu quadro esportivo. 


Orgulho Tricolor - Parte III

Os dias que se seguiram ao anúncio foram incomuns para Juquinha. Tomado pela simpatia ao clube da Gávea, o garoto tricolor e alguns de seus amigos, que também compartilhavam da paixão pelas três cores que traduzem tradição, relegaram o Fluminense e passaram a acompanhar não o simpático Clube de Regatas Flamengo, mas o clube de Gum, Carlinhos, Deco e Fred. Não ligavam mais para o Fluminense, nem sentiam tanto prazer em ver o Flu jogar, o interesse agora era saber como e quando o time capitaneado por Fred ia desfilar futebol. 

Tamanho era o encantamento da molecada tricolor com o novo time que até camisa compraram. Ao invés de torcerem pelos reservas do antigo imbatível Fluminense, preferiram acompanhar os titulares, agora num uniforme xadrez em um preto e vermelho alternado. Os tricolores com mais anos de Fluminense se achavam velhos demais para transferir a paixão pela “réplica”. Ou, diferente dos mais jovens, enxergava a relevância do clube em detrimento dos atletas na condição de ídolos. Alguns talvez nem botassem fé que aquele time de regatas, adaptado para "remar" no campo, fosse vingar.  

O frisson já havia tomado a razão infantil de boa parte dos meninos tricolores. Uns não se viam mais como tricolores, outros não viam problemas em torcer também para um clube de regatas que montara quase que integralmente o time imbatível do Fluminense no campeonato anterior. Outros poucos mesmo como acompanhantes do novo time não achavam certo relegar o Flu, ainda que na condição de medíocre e sem quase nenhum ídolo. Juquinha àquela altura se enquadrava no último grupo. 

Fora um dos que mais se empolgaram de início e o primeiro do grupo dos oito amigos tricolores a comprar a camisa do clube de regatas que agora se metia a jogar futebol. Mas aos poucos o sentimento que havia tomado a razão de Juquinha fora se dissipando. Ali estavam Fred, Cavalieri, Deco e Cia. Era o timaço que ele vira jogar e que tanto lhe dera alegria. Era o time do futebol que enchia os olhos. Mas não era o Fluminense. O vermelho não era o grená, o verde inexistia e a resplandecência do branco tinha se transformado num preto vazio e inexpressivo. Os jogos não eram nas Laranjeiras. Nas prateleiras tomadas por troféus de campeonatos de remo não havia um se quer conquistado dentro dos estádios. A torcida, bem, ainda não era uma torcida. O clube não era de football, mas de regatas. Aquilo não era certo, aquilo de maneira alguma era o Fluminense.

Apoteose Tricolor

De volta ao seu temperamento natural, Juquinha declarou, não iria mais acompanhar uma cópia desgarrada do Fluminense. Se lhe faltavam ídolos no Flu pós-dissolução, lhe sobravam motivos para enaltecer a agremiação. Ser tricolor e ter tudo aquilo que não tinha no outro clube lhe bastava. Poucos garotos tiveram a lucidez infantil do corajoso menino Juca, e preferiram seguir seus ídolos. Um ano depois Juquinha se via comemorando a primeira vitória, na primeira partida entre o então clube de regatas futebolístico e o Fluminense. Viu Deco e Cia jogarem, entrarem como favoritos e saírem derrotados. 

Fora a prova cabal para que o precoce Juquinha, agora com 11 anos, entendesse que o Fluminense independe de craques inexpugnáveis, de times insuperáveis e de ídolos intocáveis. Que tradição não se compra, que vitórias não são alcançadas sem luta, que o pavilhão tricolor não precisa de craques, basta um punhado de homens obstinados em campo. 

Possesso de alegria, feliz com a superação do declarado medíocre time do Fluminense, o pequeno tricolor Juca viu uma mística nascer. A partir de então não haveria o Fluminense de Fred ou de Deco, só haveria Fluminense, só bastava o Fluminense. Dali em diante existiria sim, o fulano do Fluminense, o sicrano do Fluminense, jamais o inverso. 

Ainda extasiado pela heróica vitória, Juquinha ouvia um grito ecoar pelas arquibancadas das Laranjeiras. Um brado que em uníssono engoliu os pobres e poucos simpatizantes do clube de regatas futebolístico. Aquele Fluminense vencedor não era um time imbatível, nem ali se comemorava um título. A vibração era pelo  triunfo da superação e a celebração de uma rivalidade que acabava de abrir os olhos para a vida do futebol. Deixando o orgulho falar mais alto e se deixando levar pelo canto entoado pela claque tricolor, Juca não tardou e acompanhou o grito que arrebatava Laranjeiras. 

- QUEM NASCEU PRA SER REGATAS, NUNCA SERÁ FOOTBALL CLUB! 

Mal sabia ele que aquele grito daria início ao maior e mais charmoso clássico do futebol mundial. Surgia também, gêmeo ao clássico recém-nascido, o orgulho tricolor. Se não nascia, tomava forma o sentimento que acompanharia todo tricolor, em qualquer parte da terra.

O FlaxFlu acabava de nascer. E como a tradição sempre fala mais alto, seu primeiro capítulo era tricolor.    

Saudações ORGULHOSAMENTE Tricolores! 

PS.: Texto de cunho fictício. Ainda que o Fluminense seja o Fluminense, o clube de regatas futebolístico seja a mulambada e o menino Juquinha seja uma adaptação do meu avô Juracy. Se você leu esta crônica até aqui, minha gratidão. 

“Sem dúvida, a grande desgraça do Flamengo é ter que conviver com um rival tão esnobe, capaz de ridicularizar aquela pobre torcida desiludida, de que outros tantos clubes tinham medo”, (RODRIGUES, Nelson)