Quinta-feira, 24 de maio de 2012




O sonho da conquista da América foi adiado. Mais uma vez.

Ao final da partida, a decepção transformou meu semblante. A tristeza, minhas atitudes. Alheio às lamúrias dos tricolores que acompanhavam a partida ao meu lado, só conseguia me perguntar.

“Mas por que, Tio Nelson? Cadê você João de Deus? Gravatinha, por que nos abandonaste de novo?”. 

Continuava em silêncio. Os tricolores iam, um a um, sentenciando o seu Judas da eliminação. “Abel, burro!”. “Rafael Moura, poste!”. “Como é chinelinho esse tal de Thiago Neves, devia ter ficado lá com a mulambada!”. Impassível, não sentia o impulso que sempre tive de sair em defesa dos nossos guerreiros, que na condição de derrotados no momento, iam sendo expostos à desforra pela própria torcida.

Persisti no silêncio.

Permaneci assim por cerca de dez minutos, esperando que alguma das entidades tricolores, apeladas antes, durante e depois da partida contra o Boca, me mandasse um sinal, uma mensagem, uma resposta. Não ouvi nada. 

Esqueci o momento.

Ainda cabisbaixo, voltei para casa analisando lances cruciais da partida e consequências daquela eliminação com um primo meu (mais um dos que herdaram o DNA tricolor). Com algumas doses a mais de sobriedade (se é que era possível depois de perder a conta das cervejas tomadas), percebi que mais uma vez o Fluminense honrou a armadura verde, branco e grená, mesmo com o gosto amargo da eliminação. Concluí que, gols nos minutos finais em partidas de Libertadores acontecem tanto para o bem, como em 2008 na mesma fase diante do São Paulo, quanto para o mal. Orgulhei-me, ao lembrar dos guerreiros brigando por cada centímetro de grama do Engenhão.

Recuperei minha razão.

E, justamente neste momento, como ao ter escutado um sussurro, vi a palavra tradição surgir em minha mente. Tradição. Tentei encontrar um motivo. Achei dois.

Nesta partida perdemos para a tradição do Boca! “Por que não!?”. Jogamos tanto quanto eles, lutamos tanto quanto eles. Mas, nesta noite de quarta-feira, a camisa do time xeneize, um pano azul e amarelo que já tinha sido visto em outras 23 Libertadores e levantado por seis vezes aquela taça cabeçuda da Conmebol,  guiou um grupo de jogadores à classificação.

Inevitavelmente comparei.

“Porra, é a quinta Liberta que jogamos. A primeira vez em dois anos seguidos”. E num momento de clarividência (como num passe mágico de Deco), entendi: “Caramba! Hoje, com essa eliminação pra o Boca, colocamos mais um capítulo do Fluminense na história da Libertadores. Ainda estamos, tardiamente, forjando nossa tradição no continente”.

Por fim, julguei.

“Breve, muito em breve, o Fluminense ganhará jogos de Libertadores como este que perdemos para o Boca. Sem jogadores totalmente inspirados. Sem técnicos estrategistas. Sem futebol vistoso. Triunfaremos unicamente com a TRADIÇÃO. E aí meus amigos, conquistar a América será questão de tempo”.

Orgulhoso do meu raciocínio e rindo do silêncio pós-partida que impedira tal análise, ouvi uma voz quando já estava só, em casa, no meu quarto. Um sotaque pernambucano, meio trêmulo, que parecia sair em meio a uma tragada de cigarro, me sussurrou: Maracanã. Cético moderado (se é que isso é possível), não encontrei razão científica para explicar o que acabara de acontecer. Então, apelando para as minhas crendices que independem de religião, lembrei das interpelações indignadas feitas por mim às entidades tricolores ao apito do árbitro.

Acreditei.

Era a voz de Nelson Falcão Rodrigues. O Tio Nelson. Não me dera uma notícia. Não me mandara uma frase genial. Apenas: Maracanã. Não sei o que ele quis dizer. Não sei qual a relação com a partida de hoje. Entendi como um sinal de jogos históricos que virão, e como um sobrinho que respeita a idade e a genialidade dos tios, fiz a única coisa que me cabia fazer no momento.

Respondi.

"Obrigado, Tio Nelson, por não ter se esquecido de me atender".

PS.: Texto de cunho fictício. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. (Isso se você tiver chegado até aqui!)

Saudações Tricolores!

“Todos os clubes têm os seus brasões. Mas só o Fluminense, além de sua bandeira e de seus títulos, tem Nelson Rodrigues” (FILHO, Nelson Rodrigues)