Segunda-feira, 12 de novembro de 2012.



Amigos, a humildade acaba aqui. Desde ontem o Fluminense é o campeão do Brasil. No maior jogo de todos os tempos, o tricolor conquistou a sua mais bela vitória. E foi também o grande dia do simplório estádio Eduardo José Farah. A torcida de guerreiros teve o sentimento do triunfo. Aconteceu, então, o seguinte: — presentes e ausentes compareceram as arquibancadas. Os presentes em carne e osso chegaram de todas as partes do país e os ausentes enviaram a positividade pelas ondas de rádios e frequência da televisão. E, diante da platéia colossal, Fluminense e Palmeiras fizeram uma dessas partidas memoráveis.

Daqui a duzentos anos o Brasil dirá, mordido de nostalgia: — “Aquele Fluminense!”. Ah, quem não esteve ontem no Prudentão não viveu. E o Fluminense fez uma exibição perfeita, irretocável. Lutou com a alma indomável do campeão. Ninguém conquista o título num único dia, numa única tarde. Não. Um título é todo sangue, todo suor e todo lágrimas de um campeonato inteiro. 

Acreditem: — o Fluminense começou a ser campeão muito antes. Sim, quando saiu do caos para a liderança. “Do caos para a liderança”, repito, foi a nossa viagem maravilhosa. Lembro-me do primeiro domingo em que ficamos sozinhos na ponta. As esquinas, os botecos e os invejosos faziam a piada cruel: — “Líder por uma semana”. Daí para frente, o Fluminense era sempre o líder por uma semana. 

Olhem para trás. Da rodada inaugural até ontem, não houve time mais regular, mais constante, de uma batida mais harmoniosa. Mas foi engraçado: — por muito tempo, ninguém acreditou no Fluminense, ninguém. Um dia, Fred deixou a França e veio ao Rio. Era o matador mais esperado que um Moisés pelo pavilhão tricolor. Queríamos um goleador. E nunca mais se interrompeu a ascensão para o título. 

E que formidável partida! Houve, durante noventa minutos, um suspense mortal. O Fluminense fez os dois primeiros gols e o Palmeiras empatou em poucos minutos. Milhões de tricolores atônitos morriam nas arquibancadas, gerais, cadeiras e sofás. E foi preciso que Fred, o goleador do Fluminense, o goleador do campeonato, marcasse aquele que seria o gol da vitória, da doce e santa vitória. E o malfadado clube paulista não empatou mais, nunca mais. Era a vitória, era o título. 

Agora a pergunta: — e o personagem da semana? Podia ser Cavalieri, que mais uma vez se exibiu de maneira magistral e, inclusive, impediu a virada. Podia ser Jean, que volta a ser o colosso da resistência e um dos maiores jogadores brasileiros de meio-campo. Penso também em Nem, que, a princípio desacreditado, teve intervenções sensacionais. Podia ser também Thiago Neves, que, tático e modesto, trouxe a equipe do caos para o título. Mas entendo que desta vez o personagem deve ser o time. Do goleiro ao ponta-esquerda. Todos, todos mostraram uma alma, uma paixão, um ímpeto inexcedíveis. A essência do time de guerreiros. 

Pelo amor de Deus, não me venham dizer que, no segundo tempo, o Palmeiras jogou com o nervo em frangalhos por conta do iminente rebaixamento. O temor pelo descenso tornou o time arisco. Eram onze fanáticos dispostos a vencer a qualquer custo ou a perecer de maneira honrosa. O Palmeiras teve ontem uma das grandes atuações deste Brasileirão. 

Mas, dizia eu no começo que a nossa humildade para aqui. Passamos toda a jornada com um passarinho em cada ombro e as duras e feias sandálias nos pés. Mas o Fluminense é o campeão. Erguendo-me das cinzas da humildade, anuncio: — “Vamos tratar do tetra e da reafirmação do maior clube do futebol brasileiro!”. 

*Adaptação da crônica "Chega de Humildade", publicada no jornal O Globo em 16/06/1969 e escrita por Nelson Rodrigues.

Fred, o Flávio de 2012. Fluzão tetracampeão. O céu é o limite. (Foto: Nelson Perez / Fluminense FC)  


Ao fim do jogo deste domingo, a frase “a humildade acaba aqui” pulsava em minha mente. Acredito que o trecho brilhantemente usado por Tio Nelson para descrever o sentimento tricolor após o bi carioca de 69 sobre a mulambada iludida seja o sentimento de todo tricolor após o tetra. A melhor e mais bonita torcida do mundo, após os três últimos anos memoráveis, olha para a década de 90 e não sente mais vergonha, ressentimento. Sente orgulho de ter passado por momento tão nefasto e ver um gigante se reerguer impávido. Tomado por este sentimento, me vi na liberdade (para não usar temeridade) de adaptar a invariavelmente genial crônica que o Profeta Tricolor havia escrito em 16 de junho de 1969, em sua coluna no jornal O Globo. 

Não me entendam mal, foi apenas um súbito desejo de ler uma crônica genial do tricolor que melhor descrevia o sentimento verde, branco e grená após um tetracampeonato nacional.

Saudações TETRAcolores!